- O que é bullying?
- O que é cyberbullying?
- Diferenças entre bullying e cyberbullying
- Sinais de que uma criança ou adolescente está sofrendo bullying
- Consequências para a saúde mental e a formação da identidade
- Como proteger crianças e adolescentes do cyberbullying
- O que diz a legislação brasileira sobre bullying e cyberbullying
- Como denunciar casos de cyberbullying
⚕️ Aviso Importante: Este artigo tem finalidade exclusivamente educativa e informativa. Ele não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico, psicológico ou psiquiátrico. Se você ou seu filho estiverem em sofrimento agudo ou em risco, busque ajuda imediatamente.
📞 CVV (Centro de Valorização da Vida): Ligue 188 (24h, gratuito) ou acesse cvv.org.br para apoio emocional.
🚑 Emergências: SAMU 192.
👤 Autor: Divino Luciano — Psicanalista e especialista em Terapia Complementar Integrativa, Editor-Chefe do Como Viver Bem.
Na minha prática clínica, recebo frequentemente crianças e adolescentes que chegam ao consultório não apenas com queixas de ansiedade ou queda no rendimento escolar, mas com a autoestima profundamente fragmentada. A raiz desse sofrimento, muitas vezes, tem um nome: bullying e cyberbullying.
A violência entre pares não é um “rito de passagem” da infância ou adolescência. É uma agressão sistemática que fere a psique em formação. Com a onipresença das telas, o agressor deixou de estar restrito ao pátio da escola e passou a habitar o quarto da vítima, através do smartphone.
Neste guia completo, vamos explorar as raízes dessa violência, como ela impacta a saúde mental infantil, o que diz a legislação brasileira atualizada e, principalmente, como pais, educadores e a sociedade podem construir uma rede de proteção e acolhimento.

O que é bullying?
O bullying pode ser definido como a prática de atos de violência física ou psicológica, intencionais e repetitivos, exercidos por indivíduos ou grupos contra uma ou mais pessoas, com o objetivo de intimidar, humilhar ou excluir a vítima.
Do ponto de vista psicanalítico, o bullying revela uma falha grave no desenvolvimento da empatia e na capacidade de lidar com a própria frustração por parte do agressor. A vítima, por sua vez, é colocada no lugar de “depositária” das projeções cruéis do grupo.
Principais características
Para que seja caracterizado como bullying, o comportamento precisa apresentar três pilares fundamentais:
- Intencionalidade: Há o desejo consciente de causar dano, dor ou humilhação.
- Repetição: Os atos ocorrem de forma sistemática e prolongada no tempo.
- Desequilíbrio de poder: A vítima encontra-se em uma posição de vulnerabilidade (física, psicológica ou social) em relação ao agressor, o que a impede de se defender facilmente.
Diferença entre brincadeira e bullying
É comum ouvir que “crianças sempre brincaram assim”. No entanto, a brincadeira é lúdica, consensual e termina quando um dos envolvidos se sente mal. O bullying é excludente, gera angústia e a vítima não tem poder para interrompê-lo.
💡 Sabia Que?
Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), cerca de 20% dos estudantes brasileiros já sofreram bullying escolar, o que afeta diretamente o desenvolvimento cognitivo e emocional na infância.
O que é cyberbullying?
O cyberbullying é a utilização das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) para praticar atos de intimidação, perseguição, humilhação ou difamação contra uma pessoa de forma repetitiva.
Na psicanálise, entendemos que o ambiente digital retira da vítima o seu “espaço de refúgio”. A dor não fica confinada à escola; ela invade o quarto, a sala e o momento de descanso, gerando um estado de hipervigilância constante.
Como acontece na internet
A violência virtual assume diversas formas, desde a criação de perfis falsos para difamar a vítima, até a divulgação de fotos íntimas ou manipuladas (muitas vezes usando Inteligência Artificial), exclusão deliberada de grupos online e chantagem.
Redes sociais mais utilizadas
O assédio online ocorre principalmente em plataformas de mensagens instantâneas (como WhatsApp), redes sociais visuais (Instagram, TikTok) e em comunidades de jogos online (Discord, Twitch), onde o anonimato do agressor é frequentemente usado como escudo.
⚠️ Atenção
A sensação de anonimato na internet não isenta o agressor de responsabilidade. A Lei 14.811/2023 tipificou o cyberbullying como crime no Brasil, e as plataformas são obrigadas a cooperar com investigações.
Diferenças entre bullying e cyberbullying

Embora compartilhem a mesma essência de crueldade, os ambientes físico e digital operam com dinâmicas distintas que amplificam o sofrimento da vítima.
| Característica | Bullying (Presencial) | Cyberbullying (Virtual) |
|---|---|---|
| Ambiente | Escola, bairro, clubes. | Redes sociais, jogos online, mensagens. |
| Temporalidade | Geralmente restrito ao horário escolar ou local físico. | 24 horas por dia, 7 dias por semana. Não há refúgio. |
| Público | Restrito a quem presencia o ato. | Potencialmente viral; alcance global e incontrolável. |
| Anonimato | O agressor geralmente é conhecido. | O agressor pode usar perfis falsos, dificultando a identificação. |
| Rastro | A palavra falada se perde (mas o trauma fica). | Prints, vídeos e mensagens ficam registrados permanentemente. |
Sinais de que uma criança ou adolescente está sofrendo bullying
A identificação precoce é a ferramenta mais poderosa de proteção. Crianças e adolescentes raramente denunciam a violência por medo de retaliação ou por sentirem vergonha. O corpo e o comportamento, no entanto, falam.
Mudanças de comportamento e somatização
Na minha experiência clínica, observo que a angústia psíquica não processada se converte em sintomas físicos (somatização). Dores de cabeça frequentes, dores de barriga, náuseas antes de ir para a escola e alterações no apetite são sinais de alerta vermelhos.
Isolamento social e medo
A criança que antes gostava de interagir passa a evitar amigos, a recusar convites e a demonstrar pavor de pegar o ônibus escolar ou de entrar em certas redes sociais. O silêncio repentino sobre a vida escolar ou digital é um forte indício.
Queda no rendimento escolar
A dificuldade de concentração, a perda de interesse pelos estudos e a queda abrupta nas notas refletem o esgotamento mental de quem vive em estado de alerta e sofrimento.
🌿 Visão Integrativa
A saúde mental infantil é um ecossistema. Quando a criança sofre violência, o sono é prejudicado, a alimentação desregula e o sistema imunológico pode enfraquecer. Tratar o bullying exige olhar para a criança como um todo: mente, corpo e emoções.
Consequências para a saúde mental e a formação da identidade
As cicatrizes do bullying e do cyberbullying vão muito além da adolescência. A forma como o “Outro” nos vê durante a infância e a adolescência é fundamental para a construção do nosso “Eu”.
Baixa autoestima e depressão
A internalização das ofensas faz com que a vítima passe a acreditar que é, de fato, indigna de afeto e respeito. Isso abre portas para quadros depressivos severos, transtornos de ansiedade e fobia social.
Impactos na vida adulta
Estudos longitudinais mostram que vítimas de bullying crônico têm maior probabilidade de desenvolver dificuldades em relacionamentos interpessoais na vida adulta, insegurança crônica e maior vulnerabilidade a abusos em relacionamentos futuros.
Risco de ideação suicida
O sofrimento psíquico extremo, aliado à sensação de que “não há saída” e de que o mundo inteiro está assistindo à sua humilhação (no caso do cyberbullying), é um fator de risco crítico para comportamentos autodestrutivos. Se você ou alguém que você conhece está pensando em desistir, ligue 188 (CVV). Você não está sozinho.
Como proteger crianças e adolescentes do cyberbullying
A proteção não se faz através do confisco das telas, mas através da educação digital e da construção de um vínculo de confiança inabalável.
Incentive o diálogo sem julgamentos
Crie um ambiente em casa onde a criança saiba que, se algo der errado na internet, ela não será punida com a perda do celular. O medo da punição é o maior aliado do agressor, pois mantém a vítima em silêncio.
Oriente sobre privacidade e segurança digital
Ensine desde cedo a configurar perfis como privados, a não aceitar solicitações de desconhecidos e a entender que o que é postado na internet pode ser copiado e compartilhado para sempre.
Monitore o uso da internet de forma saudável
Especialmente para crianças menores, o uso de ferramentas de controle parental e a participação ativa na vida digital dos filhos (jogar juntos, conhecer os influencers que eles seguem) são essenciais.
O que diz a legislação brasileira sobre bullying e cyberbullying
O Brasil avançou significativamente no reconhecimento da gravidade dessas práticas.
Lei nº 13.185/2015 (Programa de Combate ao Bullying)
Instituiu o Programa de Combate à Intimidação Sistemática, obrigando escolas e clubes a promoverem campanhas de prevenção e a capacitarem professores para identificar e mediar conflitos.
Lei nº 14.811/2023 (Tipificação como Crime)
Uma conquista histórica para a saúde pública e segurança. A lei alterou o Código Penal para tornar o bullying e o cyberbullying crimes.
- Bullying (Art. 146-A): Pena de reclusão de 2 a 4 anos, e multa.
- Cyberbullying (Art. 146-B): Pena aumentada de um terço até a metade se o crime for realizado mediante a utilização de redes sociais, aplicativos ou qualquer meio digital.
Responsabilidade das escolas e dos pais
As escolas podem ser responsabilizadas civilmente se comprovada a omissão. Os pais dos agressores menores de idade também respondem civilmente pelos danos morais e materiais causados às vítimas.
Como denunciar casos de cyberbullying
A rede de proteção deve ser acionada imediatamente.
- Na Escola: Exija a ativação do protocolo de combate ao bullying previsto na Lei 13.185/2015.
- Nas Plataformas: Utilize as ferramentas de denúncia nativas do Instagram, TikTok, WhatsApp, etc., para remoção de conteúdo.
- Delegacia: Registre um Boletim de Ocorrência (muitas vezes possível via Delegacia Eletrônica) por crime de injúria, difamação ou ameaça.
- Conselho Tutelar: Se a criança estiver com seus direitos violados e a família ou escola não estiverem agindo.
- SaferNet Brasil: Canal de denúncias de crimes cibernéticos (denuncia.org.br).
6. FAQ
Perguntas Frequentes sobre Bullying e Cyberbullying
1. O cyberbullying é crime no Brasil?
Sim. Desde janeiro de 2024, com a vigência da Lei 14.811/2023, o cyberbullying é tipificado como crime no Código Penal (Art. 146-B), com pena de reclusão de 2 a 4 anos, além de multa.
2. Como identificar se meu filho está sofrendo cyberbullying?
Observe mudanças bruscas de comportamento, como irritabilidade após usar o celular, isolamento, queda no rendimento escolar, alterações no sono e recusa em frequentar a escola ou eventos sociais.
3. O que fazer imediatamente ao descobrir que meu filho é vítima?
Acolha sem julgar e garanta que ele não será punido. Registre as evidências (prints, links), bloqueie os agressores, denuncie nas plataformas e busque apoio da escola e, se necessário, de um profissional de saúde mental.
4. A escola é obrigada a agir em casos de bullying?
Sim. A Lei 13.185/2015 obriga as instituições de ensino a promoverem medidas de prevenção, diagnóstico e combate ao bullying, além de capacitarem o corpo docente para lidar com essas situações.
5. Como conversar com adolescentes sobre respeito online?
Aborde o tema com empatia, não com sermões. Pergunte como eles se sentem ao ver certas interações nas redes. Ensine que a empatia deve atravessar a tela: o impacto emocional na vítima virtual é tão real quanto no presencial.
9. Fontes Bibliográficas
- Brasil. Presidência da República. Lei nº 14.811, de 12 de janeiro de 2024. Altera o Decreto-Lei nº 2.848/1940 (Código Penal) para tipificar os crimes de bullying e de cyberbullying. Diário Oficial da União.
- Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Cartilha de Prevenção ao Bullying e Cyberbullying. Departamento Científico de Saúde Mental.
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Global status report on school bullying and violence. WHO, 2023.
- Ministério da Saúde (Brasil). Saúde Mental na Infância e Adolescência. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde.
👤 Sobre o Autor Divino Luciano é Psicanalista e especialista em Terapia Complementar Integrativa – Saúde Integrativa. Como Editor-Chefe do Como Viver Bem, dedica-se a promover saúde mental e bem-estar holístico baseado em evidências. Com experiência clínica em abordagens que integram mente, corpo e emoções, seu trabalho busca tornar conceitos psicanalíticos e práticas integrativas acessíveis para o público brasileiro, sempre com um olhar acolhedor e fundamentado na realidade do consultório.comoviverbem.com.br • Saúde Integrativa • Mente & Corpo • Bem-Estar




